Uma conversa sobre transição capilar

Uma conversa sobre transição capilar

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Quem acompanha as redes sociais do blog sabe que, neste domingo, dia 14, estarei no Encrespa Geral Salvador para um bate-papo sobre transição capilar. Vai ser uma palestra? Não. Vai ter slide? Não. Vai ser uma conversa sincera, aberta, onde vou contar a minha experiência e ouvir a vivência de todos que estiverem por lá – e quiserem compartilhar suas questões, é claro.

Como já estou no clima do encontro, decidi iniciar aqui no blog um diálogo sobre transição. Porque esse é um assunto que ainda é delicado e precisa de debate, de esclarecimento. Quando eu era criança, não existia isso de “assumir os cachos/crespos”. Lembro que quando tinha uns 7 anos, já fazia relaxamento “infantil” para “domar” a raiz dos cabelos. A química não fazia os cabelos se tornarem lisos, mas deixava a sua raiz baixinha, do jeito que todos acreditavam que tinha de ser. “Soltava” os fios.

Minha mãe era uma vilã porque alisava meu cabelo na minha infância? Não. Nossas mães, quando se submetem a esse sistema social que exige um cabelo branqueado, não estão tentando nos diminuir, mas nos proteger. Nos blindar contra o racismo que não permite sequer que usemos nossos cabelos – meras células mortas – do jeito que eles vieram ao mundo. Elas, muitas vezes, não têm noção disso, mas o fazem instintivamente. Paralelamente ao desejo de proteção, ao negarem os nossos (e os próprios) fios, acabam reforçando um preconceito que já existe. Essa é uma das piores partes do racismo: ele faz os discriminados sentirem medo e, muitas vezes, abaixarem a cabeça sem que eles mesmos percebam. Daí vêm aqueles casos em que o negro diz: “ah, mas me chamarem de negão não é preconceito”, “os negros são racistas com eles mesmos”, “sou negro mas meu cabelo é ajeitado”. Tudo isso é medo. Medo de se assumir vítima, medo de ir contra um massacre psiclógico diário.

Transição Capilar

Iniciar a transição foi um processo muito difícil pra mim. Demorei algum tempo amadurecendo a ideia. Eu relaxava o cabelo desde criança e comecei a escovar com 16 anos. Aos 19, se não me engano, fiz minha primeira progressiva. Já estava acostumada a não mergulhar a cabeça na piscina ou no mar, a sentar no domingo para assistir o Fantástico enquanto secava os fios num processo que demorava 2h. Estava acostumada também a ter parte de minha segurança estética relacionada ao cabelo comprido, liso. Não fui uma adolescente com autoestima elevada. Me sentia feia, magra demais, detestava meu cabelo que não ficava bom de jeito nenhum, sofria bullying por ter pelos no buço (coisa que, descobri mais tarde, não era um problema só meu. Mulheres têm pelos no buço, homens, acordem!). Escovar os cabelos foi um passaporte para a mudança de minha autoimagem. Lembro que uma professora me elogiou da primeira vez que apareci com os fios lisos. Quer prêmio melhor para alguém que costumava sofrer com o reflexo no espelho?

Poderia dizer que, dos 16 aos 22 anos, vivi uma ilusão de adequação estética. Mas não: o que eu vivi foi uma confirmação diária de que aquele cabelo liso me fazia ser aceita. E eu me sentia bem em ser aceita.

Transição Capilar

Iniciar a transição foi abdicar dessa redoma e ir em busca de uma realidade que eu nem conhecia. Como eram meus fios? Crespos? Cacheados? Em qual número da tabelinha se encaixavam? Enfrentei umectações, cronogramas, texturizações… e críticas. Mas também descobri uma comunidade enorme, de braços abertos, que acabou com minha sensação de solidão e me apresentou a um novo mundo. Minha irmã, que passou pela transição antes de mim, compartilhou suas dicas e me ajudou a ter noção do que eu fazia (Obrigada! ♥). Foi um período de reencontro comigo mesma, em que percebi que eu me amava, independentemente de como eu aparentava. Posso dizer que a transição capilar foi essencial na minha vida.

Hoje, a transição é um assunto que rende – alguns dos textos mais acessados aqui no blog falam sobre o tema – e ganhou o apreço das mídias. Todos querem falar sobre garotas que assumem seus afros para o mundo. Acima de tudo, acho importante que o lugar de fala seja dado a nós, mulheres negras. Não queremos um cabeleireiro dizendo como tratar nossos crespos. Não queremos uma revista dizendo qual cor podemos usar neles. Queremos, sim, discursar a favor dessa vitória que conquistamos sozinhas. Para nós, vencer a ditadura da beleza significa conhecer a real beleza.

Transição Capilar

No dia 14, quero estar perto de pessoas que passaram ou estão passando pela transição capilar e sentir essa força ao meu redor. Vamos juntas conversar sobre nossos cabelos que, além de um acessório estético, são nosso símbolo de luta!

Espero vocês no Estúdio Pontte, Pituaçu. Mais informações na fanpage do Encrespa Geral! ♥

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