Sobre ser bonita o tempo todo

Sobre ser bonita o tempo todo

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Há algumas semanas, postei no meu canal no Youtube um vídeo reflexivo sobre a cobrança que existe para que nós, mulheres, sejamos lindas o tempo inteiro. Fiz esse vídeo sem maquiagem, com cabelo preso, usando tricô, bem diferente da imagem que geralmente atrai likes nas redes sociais – pele maquiada, cabelão com volume, roupa bafônica. Porém, embora eu tenha deixado uma mensagem com esse desabafo-filmado, a verdade é que o tema dele jamais se esgota. Volta e meia, vejo a mim mesma, assim como outras mulheres, caindo novamente no eterno vão da beleza opressora, difícil de sustentar. Vale tudo para ser bonita o tempo todo?

Neste momento, estou digitando com esmalte descascado, a pele precisando urgentemente de uma esfoliação ou limpeza com o Luna Play e a sobrancelha sem fazer. Sempre que olho a sobrancelha bagunçada, lembro de quando uma amiga viu uma selfie minha no Instagram, falando sobre algo de maquiagem, e disse que eu devia sempre ajeitar os pelos antes de postar fotos. Eu, até então, nem achava nada de errado na minha sobrancelha, até aparava a bichinha de vez em quando (mas sem tanta preocupação) e sempre a preenchi e penteei. Essa puxada de orelha me fez criar ansiedade em torno desse item, como se cada detalhe do meu rosto ou corpo estivesse sob a mira de julgamentos o tempo todo.

Me incomoda a possibilidade de ser um vetor dessa cobrança, já que, como blogueira de beleza, frequentemente compartilho dicas de produtos, crio desejo sobre marcas, incentivo consumo e a busca por um padrão estético – mesmo que seja dentro dos seus próprios moldes e não focado no visual de uma outra pessoa. Mas a verdade é que sim, eu amo beleza e acredito no poder curativo que tem o simples ato de fazer algo por você mesma, seja um escalda-pés, uma máscara, uma maquiagem mais caprichada, uma receitinha com ingredientes verdadeiros em vez da comida de shopping… Todas essas são atitudes que promovem não só a busca pela aparência ou pelos cliques no Instagram, mas sim o bem-estar, a felicidade interior.

Eu amo beleza como um presente que podemos nos oferecer, mas odeio que a mesma noção de beleza seja responsável por fazer com que pessoas se sintam mal com quem elas são e queiram parecer alguém diferente. Tento sempre desconstruir esse lado vilão dos cuidados pessoais e manter somente a parte positiva de tudo isso, mas sei que minhas braçadas nem sempre são suficientes para combater o mar de discursos desencorajadores que desaguam nos nossos cotidianos, nas mesas de café da manhã, no intervalo do trabalho, na timeline do Facebook…

Ontem, a Jéssica Flores, blogueira e youtuber, compartilhou um post no Instagram que se referia ao comentário negativo que recebeu de uma seguidora. Numa selfie, enquanto todas comentavam “musa”, “linda”, a menina disse: “Tem até uma beleza natura, mas musa? Menos” (algo assim, não lembro exatamente). Jéssica, além de responder diretamente a menina perguntando se ela estava se sentindo bem por tentar diminui-la, fez um texto totalmente dedicado à falta de sororidade nas redes sociais. O pior dos padrões e das cobranças é que não os praticamos somente conosco. Fazemos isso também com outras pessoas e, muitas vezes, podemos causar danos irreversíveis às sua auto-estima.

Ontem antes de dormir fiquei pensando: Sabe uma coisa que sempre me deixa muito chateada nas redes sociais? É a cultura de que mulher é inimiga de mulher. Sabe aquela coisa de que “não pode elogiar a fulana pq senão ela vai ficar se achando” ou “pffff, eu sou muito mais bonita que ela” ou até “aaaaah certeza que tem Photoshop nessa foto, ela não deve ser assim”, como se fosse uma eterna competição pra ver quem é melhor. Tá na hora das mulheres quebrarem essa “corrente” e darem suporte umas às outras, defenderem umas às outras, quando ouvirem comentário machisma, se colocarem no lugar e tomarem partido. O fato da outra mulher ser bonita, inteligente, interessante, bem vestida, ou “magra” não faz ela melhor que você. E não é porque você não admite ou tenta diminuir a coleguinha, que você fica mais bonita, mais inteligente, mais interessante… quando você diminui alguém, isso não te engrandece, só mostra pro mundo o quão grande é a sua insegurança Pense nisso… #sororidade

Uma publicação compartilhada por Jessica (G) Flores (@jessicaflores) em

O filme To the Bone, lançamento do Netflix, mostra como uma personagem dominada pelo discurso da magreza está tão mergulhada na anorexia que sequer vê sentido no que faz, somente sabe que precisa fazer e que não consegue agir de outro jeito. Você e eu não somos necessariamente doentes, mas de quantas coisas nos privamos diariamente pelos padrões? De comer um lanche calórico com as amigas, de relaxar um pouco em casa em vez de ir fazer as unhas, de ler um livro e deixar o cabelo pra depois… Não que tenha de ser sempre assim. Mas o importante é poder ser. Termos a liberdade de escolher.

E você, o que acha disso? Se sente cobrada para ser bonita o tempo todo? Consegue, pelo menos uma vez, vencer esses padrões?

Beijos :)

vanessa-ventura-assinatura

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