Rita Lobo… em pele de cordeiro?

Rita Lobo… em pele de cordeiro?

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Este texto poderia se chamar: como a indústria lhe manipula dizendo aquilo que você quer ouvir. Para quem está por fora da polêmica, explico. Há alguns dias, a internet entrou num movimento frenético de apoio à apresentadora Rita Lobo, do GNT, por causa de alguns tweets lançados pela moça. Ao ser questionada por uma seguidora sobre outras possíveis formas de fazer uma maionese caseira – substituindo a gema de ovo e o óleo -, sua resposta foi:

A partir do primeiro tweet, a apresentadora continuou a fazer críticas aos adeptos da alimentação funcional – aquela que encara os alimentos, entre outras coisas, de acordo com suas funções no organismo.

Segundo o discurso de Rita, a alimentação funcional é uma moda que detona o prazer de consumir uma boa comida. O processo é chamado por ela de “medicalização dos alimentos” e, para a cozinheira, foi dessa “onda de ficar escolhendo os alimentos em função dos ingredientes (que) surgiu esse novo distúrbio que trata o alimento como se fosse remédio” (fonte aqui).

Agora que explicamos a situação e os argumentos de Rita, vamos esquecer um pouco o GNT, a cozinha da moda, o Twitter, e vamos lembrar das nossas avós. De quem, desde sempre, soube para que servia cada alimento.

Banana para segurar o intestino. Mamão, para soltar. Feijão para ferro e proteína. Limão e alho para curar garganta. Cenoura e tomate, se quiser ganhar um bronze. Mingau de aveia para saciar a barriga e o coração.

A comida de verdade sempre teve funções. Entender o que cada alimento faz no nosso corpo não reduz o prazer de comer bem – pelo contrário, ajuda-nos a consumir justamente aquilo que precisamos (em receitas deliciosas, a depender da nossa disposição e talento).

Há gente que, quando bebe leite, se sente inflamada. Isso acontece porque ele é, de fato, inflamatório, além de ser uma bebida feita para o filhote e não para os adultos. Ainda assim, há também quem o consuma sem nenhum problema – essa pessoa possivelmente jamais irá dispensar seu queijinho ou um copo de leite com canela à noite. Há quem coma farinha branca todo dia sem se sentir mal. Mas, muito além do fato de esse ingrediente não ter nada de nutritivo – podendo ser trocado por outro com sabor e textura semelhantes e mais amigo do corpo -, ele realmente faz mal ao organismo de algumas pessoas.

Oi Rita, tenho que parar de comer estrogonofe pra sempre se for intolerante a lactose ou vegetariana? Obg

Oi Rita, tenho que parar de comer estrogonofe pra sempre se for intolerante a lactose ou vegetariana? Obg

Por que escolher ingredientes que podem ajudar o corpo, em vez de simplesmente enchê-lo, é visto como algo errado, fruto de um “distúrbio” alimentar? Será que termos acesso a informação e podermos usá-la ao nosso favor é, realmente, algo que deveríamos ignorar? No passado, as pessoas eram menos questionadoras porque muitos conhecimentos estavam disponíveis somente para médicos, nutricionistas. Hoje, é super possível encontrar tabelas nutricionais, textos sobre o papel de cada nutriente, dicas sobre o uso das comidas.

O discurso de Rita Lobo agradou a muita gente porque ele é fácil. E, sendo fácil, pode ser facilmente distorcido. Quem olhar o canal da apresentadora no Youtube ou ler suas entrevistas saberá que ela apoia o uso de alimentos de verdade, e não industrializados, por exemplo. Porém, as manchetes baseadas no seu tweet são animadoras não para o cara que usa azeite e queijo para cozinhar, mas para a pessoa que precisava de um aval para comer maionese e outras coisas igualmente gordurosas sem sentir culpa. O próprio manifesto da apresentadora em si é desrespeitoso com o público que sim, sofre de problemas alimentares e busca uma forma possível de continuar comendo aquilo que gosta, com uma receita adaptada. Pobre desse espectador que buscou ajuda na cozinheira que admira(va).

Eu comeria esse pratinho saudável ae

Eu comeria esse pratinho saudável ae

É preciso sentir culpa por se alimentar daquilo que quiser, quando quiser? Não. Mas então, por que é preciso agredir quem busca opções funcionais – ou seja, com funcionalidades, que funcionam – nas suas refeições? A quem interessa que os consumidores voltem a ignorar o papel de cada ingrediente, desconheçam o que eles causam em seu corpo, engulam o que lhes é oferecido sem sequer questionar a possibilidade de substituição? O princípio de ir para o fogão – como a Rita supostamente defende – é poder escolher o que se coloca na panela. E a saúde é um critério muito do legítimo, sim senhora.

Antes de seguirem Rita, lembrem-se de que ela é uma apresentadora de TV que quer vender o próprio peixe (talvez literalmente). Assim como a Bela Gil, que “virou” automaticamente a antagonista da Rita porque é odiada pelos paladinos do contra-alimentação-saudável – aliás, vamos discutir essa necessidade de criar mulheres rivais neste meu texto do Coletivo Minissaia? A questão é: enquanto uma agride quem tenta customizar sua alimentação, outra tenta dar opções para quem busca opções mais amigáveis para o corpo. Você pode selecionar seu time. Mas não jogue tomate na escolha do coleguinha.

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