Belícia Entrevista: o hairstylist Ed Santana

Belícia Entrevista: o hairstylist Ed Santana

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Ed Santana faz parte da minha vida desde maio de 2014, quando, em plena transição, decidi abandonar os fios alisados que ainda pendiam em minha cabeça e assumir de vez os cachos – mesmo que curtíssimos! Especialista em cuidar de cabelos crespos e cacheados, ele fez o meu BC em seu salão Descabelado e, um ano depois, tornou-se um parceiro querido do Belícia, e a única pessoa a cortar minhas mechas depois que voltei ao natural. Profissional de confiança, ousado e que sabe muito bem o que faz!

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A dedicação de Ed aos cabelos afro sempre me impressionou. Referência no assunto, ele está além do mercado soteropolitano – infestado de cabeleireiros que só sabem lidar com uma textura, a lisa – e, com talento e humildade, conquistou o seu lugar justamente buscando sua diferenciação. Conheça mais sobre a trajetória do cabeleireiro preferido das cacheadas baianas e inspire-se!

BELÍCIA: Como se descobriu cabeleireiro?

ED SANTANA: A verdade é que eu nunca tinha imaginado que seria cabeleireiro. Eu amava maquiagem, era algo que me lembrava pintura em tela, artesanato… Meu contato com o mundo dos cabelos ocorreu quando fui trabalhar numa perfumaria que existia dentro de um salão de beleza. No início não foi nada inspirador, eu cheguei a comentar que nunca iria trabalhar num salão de beleza.

A minha paixão por cabelo começou quando fui fazer um intercâmbio na Alemanha. Descobri um mundo diferente em relação à profissão de cabeleireiro. Eu amava as matérias exatas e era apaixonado por qualquer serviço manual. Quando eu descobri que para cortar um cabelo era necessário pensar “matematicamente” em como construir uma forma “artisticamente”, fui logo fisgado pela coisa.

Hoje, eu vejo o meu trabalho muito mais do que apenas encurtar os fios, eu vejo como esculpir uma forma, expor meu lado artesão que sempre esteve
comigo desde que eu comecei a andar e falar.

B: Quando percebeu que tinha vocação para cabelos afro?

ES: Quando eu fiz o primeiro curso de cabeleireiro me foi ensinado apenas como modificar o cabelo afro, ou seja, alisar, domar, desconfigurar a forma do cabelo. Vivi uma experiência muito forte quando eu trabalhei em um salão africano em Lisboa. O cabelo afro da mulher brasileira é muito diferente dos cabelos africanos. Da lavagem à finalização, tudo foi um grande aprendizado naquele lugar. Mas algo me incomodava! O mesmo que me deixava desconfortável aqui no Brasil. Por que essa obsessão por ter um cabelo diferente? Por que se ferir (ferida de queimaduras pelos produtos químicos) para ter um cabelo mais parecido com o europeu? Como eu poderia ajudar as pessoas que gostariam de ir ao salão de beleza e se sentirem bem e felizes com o seu cabelo natural? Após alguns anos trabalhando em um salão convencional veio a resposta. Vou criar um espaço para valorizar o cabelo. Liso, ondulado, crespo, com frizz, volumoso…. O que importa para mim é encontrar uma forma para cada cabelo e para cada cabeça.

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B: Existem formações específicas para quem deseja se especializar em cabelos cacheados e crespos?

ES: Infelizmente, a única formação especifica que existe é para mudar a forma, alisar, deformar o cabelo. Minha formação em cabelo crespo foi acontecendo de forma natural, testando e observando os resultados no manuseio do cabelo crespo, nas experiências que as próprias clientes me trouxeram. Em 2016, vou começar a treinar profissionais que querem cuidar dos cabelos naturais. Formar uma nova equipe de defensores dos crespos. Profissionais que acreditem na forma natural do cabelo e que possam olhar para o cabelo crespo, ondulado, liso, volumoso como um tipo de cabelo e não como um problema capilar. Para mim o único problema com o cabelo está na parte de dentro, na cabeça.

B: As clientes hoje têm muito mais informação que há alguns anos atrás. Isso ajuda no entendimento sobre o próprio cabelo, mas pode também fortalecer a propagação de alguns discursos enganosos. Quais os maiores mitos do cabelo cacheado?

ES: Essa é sem duvidas uma questão polêmica. Eu acredito que ter mais informação é algo valioso. Principalmente para não se tornar refém.O grande cuidado é não sair de uma prisão para entrar em outra. Existem muitas informações enganosas principalmente sobre o uso de produtos. Muita “proibição” que não é real. Das coisas que eu escuto no salão, os maiores mitos são:

1. “Usar shampoo infantil por ser mais suave”: shampoo infantil só é suave para a criança. Por ter PH neutro, não arde os olhos da criança, mas resseca muito os cabelos dos adultos.

2. “Quem faz a técnica no poo ser proibida de usar determinados produtos”: um dos maiores mitos dos últimos tempos. Pode usar o que você achar que ficou bom no seu cabelo! Fato! A técnica no poo consegue sim remover os excessos de produtos nos fios. Devemos evitar os silicones insolúveis e sílicas, porque acumulam demasiado e nem um shampoo forte consegue removê-los.

3. “Usar maizena para definir os cachos”: das técnicas de tratamentos naturais, essa é a única que não recomendo. A maizena define os cachos no primeiro dia, porém, o amido desidrata a fibra no dia seguinte. 100% das pessoas que eu questionei sobre o uso da maizena me relataram o ressecamento excessivo nos dias seguintes ao uso.

4. “Deixar o cabelo reto e comprido para controlar o volume”: existe um medo absurdo de ter volume. O maior inimigo do volume é o controle de
volume. Entender a forma de cada cabelo é a chave para ter um volume bonito.

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B: Qual a melhor forma de manter o cabelo crespo e cacheado saudável e bonito?

ES: O mais importante no cuidado diário é, sem dúvidas, o SHAMPOO. Aprender a lavar o cabelo vai fazer toda a diferença. Escolher produtos que
não sejam detergentes para o fio. Cortar com frequência. De preferência a cada dois meses. Isso vai remover o excesso das pontas deixando os cabelos mais bonitos por muito mais tempo. Hidratar com freqüência. O cabelo afro é mais frágil por ser mais fino. O tratamento deve ser semanal. A escolha de produtos deve ser adequada para cada necessidade.

B: Como saber a hora certa de aparar os cachos?

ES: A hora certa de cortar é algo muito pessoal. Depende do crescimento de cada pessoa. Em média a cada dois ou três meses o cabelo deve ser aparado
para remover o excesso das pontas que não deixam o cabelo definir. As pontas sem aparar acabam se quebrando, deixando o cabelo mais ressecado e com o crescimento lento.

B: E quem está em transição, deve apostar em tratamentos específicos?

ES: A melhor opção para quem está em transição é de fato cortar toda a parte com química e deixar o cabelo natural florescer com saúde e beleza.Para as menos corajosas, tratar o cabelo com muito carinho. Entender que é uma fase que vai passar e se dedicar a modelagem diária para disfarçar
a diferença entre as texturas. Evitar o uso de prancha e excesso de secador porque o calor em excesso acaba alisando o cabelo e prolongando ainda mais a espera pelo cabelo natural.

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B: Como criar coragem para enfrentar o BC pós-química?

ES: Costumo falar para minhas clientes que é preciso muito mais coragem para usar o cabelo com química e mal tratado.A mulher ainda enxerga o cabelo como uma muleta de pertencimento. Mulheres lindas que não acreditam em seu próprio potencial de beleza. É legal ter cabelo longo, mas também é legal ter qualquer outro tamanho de cabelo. Faço sempre a seguinte pergunta: Qual a diferença entre usar o cabelo preso e usar o cabelo curto? A resposta é quase sempre a mesma.

B: Tem alguma mensagem para as leitoras crespas e cacheadas?

ES: Acreditem na sua real beleza! O que precisa ser mudado está do lado de dentro da cabeça.

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